A discussão sobre inteligência artificial e criação costuma se concentrar na possibilidade de substituição do trabalho humano. No entanto, algumas pesquisas apontam para uma questão mais imediata: a presença da IA também interfere na maneira como uma obra é percebida, avaliada e valorizada.
Uma imagem não é julgada apenas por suas características visuais. Informações sobre autoria, processo, intenção e esforço também participam dessa avaliação. Por isso, a mesma obra pode receber interpretações diferentes dependendo de como sua origem é apresentada.
Isso não significa que toda resistência à arte produzida com IA seja resultado de preconceito ou desconhecimento. Existem discussões legítimas sobre direitos autorais, remuneração, transparência, uso de dados e condições de trabalho. As pesquisas tratam de uma questão mais específica: o efeito que o rótulo “feito por IA” pode exercer sobre a percepção do público.
A mesma obra pode ser avaliada de formas diferentes
Um estudo publicado em 2023 na revista Scientific Reports reuniu seis experimentos com 2.965 participantes. A pesquisa, conduzida por C. Blaine Horton Jr., Michael W. White e Sheena S. Iyengar, analisou como diferentes informações sobre autoria influenciavam a avaliação de trabalhos artísticos.
Em parte dos experimentos, as mesmas imagens eram apresentadas como obras feitas por humanos, produzidas por inteligência artificial ou desenvolvidas por meio de colaboração entre ambos.
Mesmo quando o conteúdo visual permanecia igual, as obras atribuídas à IA tendiam a receber avaliações inferiores, principalmente em critérios relacionados à habilidade artística e ao valor monetário. Ao mesmo tempo, mais de 70% dos participantes afirmaram que não conseguiriam identificar sozinhos quais imagens haviam sido produzidas por humanos ou por sistemas de IA.
Outro estudo, realizado por Lucas Bellaiche e outros pesquisadores, encontrou um resultado semelhante. Imagens geradas por IA foram apresentadas com diferentes informações de autoria. Quando os participantes acreditavam que a obra havia sido criada por uma pessoa, tendiam a avaliá-la melhor em aspectos como beleza, profundidade, preferência e valor.
Os resultados sugerem que o julgamento não depende apenas do que aparece na imagem. A história contada sobre sua origem também influencia a maneira como ela é recebida.
A percepção de esforço participa da avaliação
Uma das possíveis explicações para esse comportamento está na forma como as pessoas relacionam esforço e valor.
Em diversas situações, um trabalho tende a ser mais valorizado quando parece ter exigido tempo, habilidade, dedicação e conhecimento. Mesmo que o esforço não possa ser observado diretamente, o público constrói uma ideia sobre o processo a partir das informações disponíveis.
Nos experimentos de Bellaiche e seus colegas, as obras apresentadas como humanas foram associadas a mais esforço, mais tempo de produção, maior significado e maior capacidade de contar uma história. Essas percepções ajudavam a explicar por que elas recebiam avaliações melhores.
O rótulo “feito por IA”, por outro lado, pode sugerir um processo rápido e praticamente automático. Ele frequentemente reduz uma produção inteira à imagem de alguém escrevendo um comando e recebendo um resultado pronto.
Essa percepção nem sempre corresponde ao processo real. Um trabalho com IA pode envolver pesquisa, desenvolvimento de conceito, construção de referências, dezenas de tentativas, seleção, composição, edição, tratamento e finalização. Ainda assim, quando essas etapas não aparecem, o público pode supor que elas não existiram.
O uso da IA não elimina necessariamente o esforço humano, mas pode torná-lo menos visível.
A discussão também envolve ideias sobre criatividade e autoria
A avaliação de obras produzidas com IA não está ligada apenas à aparência ou à qualidade técnica. Ela também depende do que cada pessoa entende por criatividade.
Um estudo conduzido por Kobe Millet e seus colegas, com mais de 1.700 participantes, mostrou que a mesma obra era considerada menos criativa e despertava menos admiração quando apresentada como resultado de inteligência artificial.
Esse efeito era mais forte entre participantes que entendiam a criatividade como uma característica exclusivamente humana. Para essas pessoas, reconhecer uma máquina como participante do processo criativo parecia entrar em conflito com a própria definição de criação.
Essa reação ajuda a entender por que algumas discussões sobre arte e IA rapidamente deixam o campo técnico e passam para questões mais amplas. O debate não trata apenas de saber se uma imagem é bonita ou bem executada. Ele também envolve intenção, experiência, consciência, responsabilidade e reconhecimento.
Quando uma obra é atribuída a uma pessoa, o público pode imaginar escolhas, referências, experiências e objetivos por trás do resultado. Quando a autoria é atribuída à IA, parte desse contexto desaparece.
Por isso, o rótulo pode afetar não apenas a avaliação da imagem, mas também a maneira como o público interpreta aquilo que ela representa.
A colaboração entre humanos e IA é percebida de forma diferente
Grande parte da criação profissional com inteligência artificial não acontece de maneira totalmente autônoma. Existem diferentes níveis de participação humana, desde a produção de um comando simples até processos extensos de direção, curadoria, edição e pós-produção.
Mesmo assim, apresentar uma obra como resultado de uma colaboração entre uma pessoa e uma IA não elimina completamente a diferença de percepção.
Nos experimentos de Horton e seus colegas, obras descritas como colaborativas foram avaliadas melhor do que aquelas atribuídas somente à inteligência artificial. No entanto, ainda receberam avaliações inferiores às obras apresentadas como exclusivamente humanas.
A contribuição humana também era percebida de maneiras diferentes dependendo da comparação. Quando uma obra colaborativa aparecia ao lado de uma produção atribuída somente à IA, o papel humano parecia maior. Quando era comparada a uma obra apresentada como inteiramente humana, essa participação parecia menor.
Isso mostra que expressões como “feito com IA” ou “criado em colaboração com IA” ainda deixam muitas perguntas abertas. Elas não explicam quem definiu o conceito, quem tomou as principais decisões, quem selecionou os resultados ou quem realizou a finalização.
O público sabe que houve uma ferramenta, mas não necessariamente entende como ela foi usada.
Tornar o processo visível pode mudar a forma como o trabalho é recebido
Uma possível resposta a essa situação não é esconder o uso da inteligência artificial, mas apresentar o processo de maneira mais clara.
Outro estudo sobre cocriação artística com IA, conduzido por Udi Messer, indicou que obras produzidas com participação da tecnologia tendiam a ser consideradas menos autênticas. Entretanto, esse efeito diminuía quando o público recebia mais informações sobre o papel desempenhado pelo artista.
Explicar que houve direção, curadoria, edição ou desenvolvimento de um método próprio oferece um contexto que o rótulo genérico “feito por IA” não consegue transmitir.
Em vez de atribuir toda a produção à ferramenta, os créditos podem diferenciar as etapas do trabalho:
- conceito e direção artística;
- pesquisa e seleção de referências;
- geração assistida por inteligência artificial;
- curadoria e seleção de resultados;
- composição e edição;
- tratamento e finalização.
Essa descrição não deve ser usada para aumentar artificialmente a importância da participação humana. Ela precisa corresponder ao processo real. Sua função é permitir que o público compreenda onde ocorreram as escolhas e quais responsabilidades permaneceram com o criador.
Mostrar bastidores, versões descartadas, referências e decisões também pode ajudar. Esses elementos deixam claro que o resultado não surgiu apenas de uma ferramenta, mas de um conjunto de critérios aplicados ao longo do processo.
Transparência não precisa significar simplificação
A expressão “feito por IA” parece objetiva, mas pode ser imprecisa. Ela reúne processos muito diferentes sob uma única categoria.
Uma imagem gerada por meio de um único comando e publicada sem alterações não envolve o mesmo nível de participação humana que uma produção construída por meio de pesquisa, composição, múltiplas gerações, edição e finalização manual. Ainda assim, ambas podem receber exatamente o mesmo rótulo.
Uma comunicação mais cuidadosa não precisa esconder o uso da tecnologia nem transformar cada publicação em uma defesa da inteligência artificial. Ela pode simplesmente descrever melhor o trabalho realizado.
Também é importante evitar o extremo oposto: tratar qualquer interação humana como prova automática de autoria relevante. Apertar botões, escolher entre poucas alternativas ou corrigir pequenos detalhes não torna necessariamente um processo profundamente autoral.
A questão central é identificar onde estão as decisões que realmente estruturam a obra. A autoria se torna mais clara quando existe uma relação reconhecível entre intenção, escolha e resultado.
Conclusão
As pesquisas indicam que o rótulo “feito por IA” influencia a maneira como uma obra é avaliada. Mesmo diante da mesma imagem, o público tende a atribuir mais valor, criatividade e profundidade quando acredita que o trabalho foi realizado por uma pessoa.
Essa diferença parece estar relacionada a ideias sobre esforço, intenção, autenticidade e autoria. Quando a IA é apresentada como responsável pela obra, o processo humano pode desaparecer da percepção do público, mesmo quando teve participação importante.
Isso não significa que toda criação com inteligência artificial deva ser tratada como equivalente à criação humana, nem que as críticas ao uso dessas ferramentas sejam infundadas. Significa apenas que os rótulos simplificam processos complexos e podem influenciar o julgamento antes que o trabalho seja analisado em seus próprios termos.
Para quem cria com IA, o caminho mais consistente é combinar transparência com precisão. Não basta informar que a ferramenta foi utilizada. Também é necessário deixar claro qual foi sua função, quais decisões permaneceram humanas e como o resultado foi construído.
A presença da IA faz parte do método. A autoria, quando existe, aparece nas escolhas, na direção, na intenção e na responsabilidade sobre aquilo que é apresentado.
Fontes: “Bias against AI art can enhance perceptions of human creativity”, Horton Jr., White e Iyengar, Scientific Reports, 2023; “Humans versus AI: whether and why we prefer human-created compared to AI-created artwork”, Bellaiche et al., Cognitive Research: Principles and Implications, 2023; “Defending humankind: Anthropocentric bias in the appreciation of AI art”, Millet et al., Computers in Human Behavior, 2023; e “Co-creating art with generative artificial intelligence: Implications for artworks and artists”, Uwe Messer, Computers in Human Behavior: Artificial Humans, 2024.
